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Pela primeira vez, é adaptado para os palcos o romance clássico “O Amante de Lady Chatterley, de D.H. Lawrence”, num texto de Germano Pereira e direção de Rubens Ewald Filho. No elenco, Germano Pereira (como Lawrence e também Mellors, o Amante), Ana Carolina Lima (Constance) e Ailton Guedes (o marido, Clifford.A história da jovem inglesa burguesa Constance que aceita casar com um lorde, seu antigo namorado que perdeu o uso das pernas e ficou impotente durante a Segunda Guerra Mundial, e que terá um relacionamento explosivo e liberador com o guarda-caça da propriedade deles, provocou escândalo em todo o mundo por ter sido proíbido pela censura, tanto na Inglaterra (terra natal de Lawrence), quanto nos Estados Unidos.
Quando foi finalmente liberado, em 1959, por uma decisão da Corte Suprema norte-americana deu margem assim ao fim da Censura. A decisão confirmava que todo cidadão tem o direito de ler o que bem entender, sem censura prévia. O Livro que existia apenas em edições piratas se tornou um enorme best-seller e foi adaptado algumas vezes para o cinema e, recentemente, numa versão francesa premiada. A diferença é que a diretora Pascale Ferran se baseou na segunda versão do livro que Lawrence foi obrigado a reescrever, ou seja, censurada. Enquanto que a montagem teatral é baseada na versão definitiva, naturalmente mais ousada e madura.
Bem antes do ator Pedro Cardoso levantar a polêmica sobre o excesso de nudez no cinema”, explica o diretor Rubens Ewald Filho, “nós já assumimos isso. No palco, a nudez é ainda mais freqüente e normal. Por vezes, até gratuita. Por isso, ousamos ser diferentes. A intenção é fazer um espetáculo saudavelmente erótico, mas sem tirar a roupa de ninguém. Nós procuramos seduzir pela palavra, pela ação, pela poesia, pela encenação. ”
“Considero O Amante uma das obras mais eróticas já escritas e também um ícone para a minha geração. A adaptação de Germano procura não traí-la. Ao contrário, tem trechos literalmente extraídos de Lawrence. Inclusive a defesa que ele fez nos tribunais”, diz Ewald.
O Amante de Lady Chatterley
Texto de Germano Pereira da obra de D.H.Lawrence
DIREÇÃO: Rubens Ewald Filho
ELENCO: Germano Pereira, Ana Carolina Lima e Ailton Guedes
ESTRÉIA: dia 5 de Novembro
TEMPORADA: até 11 de Dezembro
DATA: Quartas e Quintas-feiras
HORÁRIO: 21h
LOCAL: Espaço Satyros 2 Praça Roosevelt, 134 Tel. (11) 3258. 6345
DURAÇÃO: 80 minutos
LOTAÇÃO: 90 lugares
INGRESSOS: R$ 20,00 / meia entrada R$ 10,00
RECOMENDAÇÃO: 14 anos
BILHETERIA abre uma hora antes do espetáculo
Somente dinheiro
Não tem acesso para deficientes/ não tem ar condicionado
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Para mim e para toda minha geração, O Amante de Lady Chatterley foi um livro fundamental. Concebido nos anos 20, só liberado em 1959, ele passou a simbolizar o fim da censura, quando uma decisão da Corte Suprema dos Estados Unidos determinou que de acordo com a Constituição Norte- Americana todo indivÍduo tem o direito de determinar o que deseja ler. Mesmo que seja de conteúdo erótico. E por causa da liberação do livro de D.H. Lawrence que havia sido apreendido na Alfândega americana, foi possível quebrar todas as barreiras da repressão. Logo acabou o Código Hays do Cinema, as ameaças ao teatro, a qualquer obra de qualquer forma de expressão humana. O que vemos hoje, por vezes, até com excessos, devemos a Lawrence e a coragem dos editores que levaram o caso até a ultima instância.
Então Lady não é apenas um livro, virou um fato histórico, um ícone. O que de certa maneira prejudicou a própria avaliação da obra e do autor. Houve uma pudica versão francesa em 55 com Danielle Darrieux, outra feita pelo diretor e a estrela de Emmanuelle em 1981. Uma feita para a televisão por Ken Russell em 1993 e a recente francesa longa e meritória, mas baseada na sua versão do livro (ou seja, o censurado, ainda não definitivo).
Adaptar Lawrence e seu livro sempre foi um sonho e que eu sabia nunca foi feito antes para teatro. Com o apoio dos amigos do grupo Satyros, Germano Pereira e eu concebemos uma trilogia sobre o amor, mostrando as diferentes formas de amar, fosse o amor heterossexual com em Lady Chatterley, o amor entre homens (Mulheres Apaixonadas) e entre mulheres (The Fox). Começando pelo mais famoso e polemico que também é de certa maneira é uma sumula das ideias do autor sobre a plenitude e a necessidade da satisfação sexual.
Seria muito fácil, porém partir para uma versão explicita, de muita nudez e franqueza sexual. Mas os tempos mudaram e hoje em dia o ousado é justamente o oposto, falar de sexo, mostrar sexo sem tirar a roupa de ninguém. Sem transformar tudo numa orgia. E, no entanto sem fugir do tema, nem esconder nada do que o autor discute.
O desafio foi mesmo partir para uma visão poética que sendo extremamente fiel a Lawrence, às vezes ao pé da letra, conseguisse passar para o espectador a complexidade de seus temas e sentimentos. Como fizemos antes em Hamlet Gashô, Germano e eu nos sentamos e concebemos juntos a estrutura do roteiro, quase como uma pré-direção do espetáculo. Dali em diante, foi ele que cuidou do texto, encontrando o tom certo, sem fugir do romântico, do passional, nem tampouco da presença fundamental de John Thomas e Lady Jane (durante algum tempo pensamos em usar esses nomes dos órgãos sexuais dos protagonistas como titulo da encenação mas optamos pelo do livro que é mais conhecido).
Optamos também por uma equipe muito pequena. Tivemos a sorte de encontrar numa aula na Casa do Saber a Nadine .... que se tornou outro ponto fundamental do triangulo criativo, sendo não apenas produtora executiva e assistente de direção mas também se encarregando dos figurinos e cenografia. Na verdade, optamos por uma linha didática. Tive a preocupação de não sonegar informações e esclarecer o espectador para entender certas conclusões. Assim uma projeção em tela, será fundamental para situar a ação e passar informações. Será quase como que nossa cenografia, que irá se limitar a uns poucos adereços e objetos de cena. Por outro lado demos especial importância à projeção de obras de arte contemporâneas (por que Lawrence, poucos sabem , era um pintor frustrado e que fez apenas uma única apresentação deles em vida alias com quadros de teor erótico). Lawrence será nosso pano de fundo, junto com Klimt, Schiele e outros. Preferimos usar o clima das pinturas e dar especial ênfase ao figurino, que é quase todo “vintage” . Ou seja, autêntico e de época, recolhido nos arquivos implacáveis de Nadine (ou então em brechós).
Nossa opção mais ousada foi colocar em cena o próprio Lawrence defendendo e descrevendo sua obra (confesso ter tido a idéia a partir do filme de Madame Bovary de Vincente Minnelli onde James Mason fazia Flaubert). Só depois que percebemos em fotos antigas que Germano Pereira era fisicamente muito parecido com Lawrence. Também pareceu lógico que ele fizesse também a emanação do autor, que se espelha em Mellors num retrato idealizado como o homem que gostaria de ter sido.
Não foi fácil encontrar uma Constance que tinha ter a beleza, o encanto de uma jovem e a habilidade de uma veterana. Conheci Ana Carolina Lima quando ela ganhou o premio de melhor atriz em curta no Festival de Paulínia, de que eu fui organizador. Depois de ter faltado num teste, tudo se arranjou, ainda mais quando descobri sua semelhança com uma de minhas estrelas favoritas, e acabamos formando uma pequena família a que se juntou uma indicação de Nadine, o santista como eu Ailton Guedes, formado com Antunes Filho, no papel difícil do marido ( e também o juiz).
Feito em equipe, com permanente bom humor, com carinho e dedicação, o nosso O Amante de Lady Chatterley tem uma única e pequena grande pretensão: resgatar a importância do autor e provocar a discussão e redescoberta de sua obra.
RUBENS EWALD FILHO |